Crítica | O Rastro – Terror esquizofrênico esquece de assustar

Crítica | O Rastro – Terror esquizofrênico esquece de assustar

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Cadê o Medo?

Fazer filme de gênero no Brasil é muito difícil e parecemos estar sempre correndo atrás do próprio rabo. Por aqui, os únicos gêneros que emplacam de verdade comercialmente são as comédias (a maioria de pouca inteligência) e filmes sobre a realidade do país, sejam os favela movies ou biografias de alguma personalidade nacional. As obras de maior qualidade se restringem a dramas independentes oriundos do cinema de arte, raramente abrangendo um grande público.

Dentre os gêneros mais cultuados do cinema, está o muito específico do terror. E no quesito, nosso país ainda se encontra bem deficiente. Diversas produções tentaram, mas assim como acontece com os dramas, os bem sucedidos ficam presos a nichos, sem nunca emplacar com os jovens, consumidores mais ávidos de tal produto. O novo exemplar atende pelo nome O Rastro , filme que usa como mote e cenário um ambiente perfeito para o gênero, um hospital abandonado.

Na trama, pacientes precisam ser relocados às pressas, já que o hospital aonde se encontram será desativado em breve por falta de verba do governo. O fato faz com que o protagonista Dr. João Rocha ( Rafael Cardoso ) bata de frente com os antigos companheiros de trabalho, Olívia Coutinho ( Claudia Abreu) e o ex-chefe Heitor Almeida ( Jonas Bloch ), ambos aparentemente escondendo um assombroso segredo sobre o local.

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No ínterim desta crítica social e política, a menina Júlia ( Natalia Guedes ), internada no local, desenvolve afeto pelo médico, somente para depois desaparecer sem deixar vestígios. Como intrépido herói que é, o Dr. Rocha não irá descansar até descobrir o paradeiro da pequena, no caminho se deparando com inúmeros mistérios, os quais desejará jamais ter tomado ciência.

Por esta sinopse, a coisa parece realmente ser melhor do que é. E talvez eu a esteja vendendo demais – melhor até do que os próprios realizadores. O que ocorre é que O Rastro não pode ser considerado verdadeiramente um filme de terror, como vem sendo divulgado. As prévias, o que inclui o estiloso cartaz e o trailer exibido na CCXP do ano passado, exalam a errônea concepção de que este será um thriller de horror envolvendo fantasmas num cenário assustador. Bem, não é exatamente isso o que recebemos.

Vamos por partes. O grande problema de O Rastro é amontoar em seu roteiro muitos assuntos e tópicos, sem focar em qual será seu norte. Se a opção era por um filme de terror, digamos que o caminho escolhido havia de ser a menininha assombrada vagando pelos escombros. Mas ao invés disso, de maneira amnésica, o longa esquece a subtrama para centrar em outros assuntos, como se quisesse falar de tudo um pouco, resultando no não aprofundamento de nenhum deles.

Como dito, mais do que um filme de fantasmas, O Rastro é uma crítica, tendo a pretensão, mesmo que de forma muito descoordenada, de falar sobre o cenário político atual, aonde governantes passam por cima do povo como verdadeiros rolos compressores. Ok, a intenção é válida, mas para isso seria necessário uma transição mais limpa e eficaz da parte do roteiro, que não consegue casar bem suas subtramas – ainda envolvendo um terceiro arco sobre o verdadeiro enigma do hospital e seus funcionários – resultando em momentos desconexos, como vindos de filmes distintos.

A narrativa de O Rastro é bem lenta também, e seu ritmo beira o letárgico. Isso quando não falamos da falta de ritmo da obra, que possui cenas bem quadradas e capengas. A montagem não transmite bem os famosos jumpscares, como são conhecidos os desavergonhados sustos, daquele tipo em que a música alta sobe no momento em que algo pula na tela – de preferência um gato. Vocês sabem bem. O que reforça que até mesmo para isso é preciso timing. Aqui, a maioria ocorre fora de lugar, e com o som estourando – problema da edição.

A esquizofrenia de O Rastro não o deixa funcionar bem como terror, tampouco como crítica, ou qualquer outro gênero ao qual almeja. Ficamos apenas olhando para a tela, compreendendo um pouco o que desejava o diretor J.C. Feyer, e imaginando em que momento da pós-produção as coisas saíram completamente dos trilhos. Os atores, em sua maioria são mal utilizados, e isso porque ainda não citei a presença de Leandra Leal , musa do cinema brasileiro na atualidade, mais perdida do que cego em tiroteio, no papel da esposa grávida do protagonista. E o saudoso Domingos Montagner entrega um de seus últimos trabalhos na pele do corrupto governador do Rio de Janeiro.

É duro falar mal do nosso cinema, que produz sim muita coisa boa. Mas quando o assunto é terror, ainda existe pouco rastro de qualidade…


Crítica Liga da Justiça


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