Crítica | O Rei do Show – musical grandioso ganha pela energia

Crítica | O Rei do Show – musical grandioso ganha pela energia

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Os Miseráveis do Picadeiro

Os musicais estão em extinção, mas ainda sobrevivem em Hollywood. Antes, o gênero mais popular da chamada era de ouro (1920 – 1960), os musicais eram, comparativamente, como os filmes de super-heróis que temos hoje. Filmes ricos e elaborados, que por sua vez arrastavam verdadeiras multidões aos cinemas. Hoje, o gênero se encontra reduzido a um ou dois lançamentos anuais. Por outro lado, é muito bom perceber que a indústria não os deixa morrer totalmente, investindo nessas produções e as adaptando, modernizando para a nova geração.

Podemos apontar um anacronismo comparativo entre O Rei do Show e outro musical sensação recente, La La Land: Cantando Estações – lançado no início do ano nos cinemas brasileiros (e no fim do ano passado no resto do mundo). Enquanto La La Land é moderno, passado nos dia de hoje e se propõe a discutir problemas cotidianos atuais, sua forma, estrutura e homenagem são voltadas aos musicais clássicos, justamente da era de ouro. Já O Rei do Show , conta a história de P.T. Barnum, lendário empreendedor do ramo de entretenimento, que fundou o circo como conhecemos hoje, e se passa no século XIX. Sua forma, no entanto, é mais dinâmica e arrojada, suas músicas pop e sua edição é de vídeo clipe.

A história criada por Jenny Bicks (produtora da série Sex and the City ), com roteiro escrito pela própria em parceria com Bill Condon – um especialista no gênero (portando obras como Chicago , Dreamgirls: Em Busca de um Sonho e o recente A Bela e a Fera no currículo) é uma versão condensada da biografia de Barnum, empacotada e pronta para ser consumida pelas massas. É musical popular, que faz checkpoint em cada item necessário para resultar numa obra de fácil acesso, arquitetada para agradar gregos e troianos. Temos romances proibidos, um tema de aceitação e inclusão das diferenças, busca e realização de seus sonhos, a idealização da família (seja de sangue ou amizade) e, é claro, músicas pra lá de contagiantes.

É inegável também que esta é uma biografia fantasiosa e demasiadamente romanceada. De fato, O Rei do Show poderia ser uma animação da Disney, onde os problemas são apenas de mentirinha e tudo se resolve à base de cantorias. Outra comparação válida é com o cinema de Frank Capra( A Felicidade Não se Compra , 1946), diretor dono de obras que enfatizavam a utopia, sempre colocando em primeiro plano a bondade do ser humano e sua capacidade de triunfar fazendo o correto e o bem. Todos esses elementos são encontrados aqui, na estreia de Michael Gracey como diretor. O jovem cineasta deve ser incrivelmente bem relacionado e ter as “costas quentes”, já que tem pouquíssimos trabalhos no cinema em outras áreas, e menos ainda significativos. Graceyvem de um passado na publicidade, de comerciais de TV. Felizmente, o sujeito dá conta do recado e imprime um ritmo satisfatório à sua narrativa (que incomoda só um pouco no início pela correria). Como disse seu elenco, o cineasta demonstra talento de um veterano. Isso é verdade.

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Na trama, Hugh Jackman , ator experiente no gênero, oriundo dos palcos, vive Barnum com a elegância de sempre. De passado pobre, saído das ruas enquanto ainda menino, o protagonista vai aos poucos realizando seus sonhos e conquista sua paixão de infância, Charity ( Michelle Williams ), vinda de uma família rica. Mesmo depois de terem duas filhas, a vida dos Barnum não é nem de perto estável, e as dificuldades financeiras estão sempre à porta. Como a mensagem aqui é extremamente positiva, a família enfrenta seus problemas com entusiasmo e otimismo, correndo atrás de dias melhores. A veia de Barnum para o diferente, para o inusitado e para as artes, é sua bússola e o guia até um grupo excêntrico de pessoas, à margem da sociedade, consideradas aberrações. Barnum lhes dará voz e fará delas estrelas de seu show. Este é o cerne de O Rei do Show .

Se notaram algum ceticismo na descrição acima, esta não foi a intenção. Mas ele existirá aos montes em relação à obra. E eu não nego. Este é um conto de fadas, e muitos dirão que não se aprofunda em questões fervorosas e dignas de discussão, tratando de forma leve, e apenas pincelando tais dilemas morais. Concordo. Mas O Rei do Show é o tipo de filme onde tudo isso é perdoado em nome do entusiasmo. Sua proposta, assim como a de Barnum, é entreter o público. É fazê-lo esquecer dos problemas por quase duas horas e entregar um filme recheado de boas ideias e bons sentimentos, que cativa, emociona e empolga – mesmo que te pegue pela mão e te faça refém para isso. É impossível não se deixar levar pelas canções do filme e a funcionalidade de um musical, que aqui atinge as notas certas. Canções como ‘ This is Me ’ e ‘ Rewrite the Stars ’ já ganharam o imaginário geral e devem ser lembradas no Oscar, com uma das duas inclusive possivelmente saindo vitoriosa.

No elenco principal vale a pena citar também Zac Efron , nascido no gênero, eficiente como o burguês Carlyle; a gracinha Zendaya que fez suas próprias cenas no trapézio, e está pronta para ser uma estrela; a carismática Keala Settle (que vive a mulher barbada e desempenha a canção chave no longa); e Rebecca Ferguson , num papel originalmente criado para Anne Hathaway, cuja performance tem a força de um furação. Todos possuem seus próprios números, equilibrados e que servem como cartão de visitas para vindouros projetos. Todos estão aprovados.

Assim como no vencedor do Oscar de melhor filme em 2015, Birdman , existe uma cena primordial envolvendo um crítico, que define muito os ideais destas obras e suas razões de existirem. Aqui, Barnum, assim como seu próprio filme, faz seus espetáculos para o povo, para o consumo do maior número de pessoas possíveis, embora um renomado crítico trate de persegui-lo com suas palavras ferrenhas, apontando a falta de qualidade em seu trabalho. Em outro momento, talvez buscando aprovação, Barnum incorpora a cantora clássica Jenny Lind ( Ferguson) ao seu repertório e trata de representá-la em seus concertos. É quando consegue transcender e ser relevante para uma nova parcela da sociedade. O Rei do Show é assim, musical pro grande público, dono de energia apaixonante, que nos desafia a renegá-lo. E não farei este papel.

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