Crítica | Star Wars: Os Últimos Jedi – Demora a engatar, mas quando engata é épico

Crítica | Star Wars: Os Últimos Jedi – Demora a engatar, mas quando engata é épico

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O Império Revida

De fato, quando começa este Os Últimos Jedi não sentimos que muita coisa mudou desde que visitamos este mundo e seus personagens há dois anos em O Despertar da Força . A brincadeira em forma de meme que está rolando nas mídias sociais com Rey e Luke (ela segurando o sabre dele com o braço estendido por dois anos) se faz quase verdade, e o filme, neste trecho, continua do exato momento. Nas letras subindo em scroll na abertura – marca registrada da série, que carrega o majestoso tema de John Williams– as informações parecem notícias velhas também. A Primeira Ordem ganhou mais terreno e quase erradicou por completa a aliança rebelde. Por outro lado, estes ainda creem que Luke ( Mark Hamill ) seja a esperança de vitória. Bem, por esta apresentação podemos pensar que os realizadores tiveram, assim como no episódio anterior, os filmes da trilogia clássica em mente – O Império Contra-Ataca (1980) começa exatamente assim, com este tom caótico.

Os Últimos Jedi é um ótimo filme, mas não é um filme perfeito. Um de seus maiores problemas, e um problema muito sentido e que incomoda, é a falta de ritmo narrativo até, digamos, seu terceiro ato. E aí talvez entre em cena a mão de Rian Johnson , diretor escolhido para talhar este novo episódio, obviamente sob a supervisão de J.J. Abrams, o articulador desta nova trilogia, que aqui atua como produtor, e em breve voltará à direção no comando do último capítulo. Por mais difícil que possa parecer, Rian Johnson , de 43 anos, tem poucos filmes no currículo em sua filmografia, e apenas Looper: Assassinos do Futuro (2012) de mais chamativo dentro da ficção científica. Mesmo assim recebeu controle total (ou quase) deste oitavo episódio – escrevendo o roteiro e dirigindo. E esta fragilidade é sentida nas duas áreas.

A verdade é que  Johnsonnão cria uma boa história para Os Últimos Jedi , se formos analisar o todo. É uma trama simples, que durante mais da metade da projeção faz uso de algumas cenas que poderiam facilmente ter ficado de fora do corte final – o que é a cena no planeta cassino, que envolve a subtrama de Finn ( John Boyega ) e Rose ( Kelly Marie Tran), a nova personagem adicionada e interesse amoroso, resgatando “cavalos de corrida”, e os salvando de ricaços inescrupulosos? A cena está no filme para introduzir o especialista arrombador – que inacreditavelmente não é o maior trapaceiro da galáxia, Lando Calrissian ( Billy Dee Williams), mas sim o personagem canalha e gago de Benicio Del Toro(ótimo em cena e dono de um bom arco dramático). Como este, alguns outros momentos poderiam ter sido enxugados do roteiro.

Outra das personagens novas que ganha destaque é a de Laura Dern , uma das líderes da rebelião, que assume o comando depois que a General Leia sai de cena. Momentaneamente, calma, não é o que você está pensando. Dernse sai bem, segura as cenas intensas e protagoniza justamente ao lado da saudosa Carrie Fisher , a cena mais emotiva do longa, que trouxe nó à garganta. E tenho certeza que trará à de vocês também. Sua personagem reserva uma reviravolta interessante, num arco sobre lealdade e traição. Por falar em reviravolta… bem, segura aí que voltarei a este tópico mais para frente. Falando dos personagens que já haviam aparecido no filme de 2015, é Poe Dameron, de Oscar Isaac , quem cresce muito e se ergue como líder nato. O sujeito mostra que se importa com a causa como nenhum outro e faz muito além do esperado dele. Creio que será o coração desta revolta.

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Pulando para a participação de Carrie Fisher , dá para ver que a saudosa veterana realmente completou todo seu trabalho nesta produção. Sua participação é de destaque, e sua personagem é dona de enorme importância dentro da trama. Ela aparece muito e do início ao fim. Em determinado trecho, quando achamos que o filme tratará de tira-la de cena da pior forma possível (e acredite, os trailers estavam certos, ao contrário do que todos imaginavam – as cenas estavam mesmo na ordem), a primeira grande reviravolta é dada no roteiro, que deixará os fãs de cabelo em pé. Por isso é que acima eu disse que voltaria a este tópico, sobre as reviravoltas contidas aqui. Este é o filme das guinadas, da imprevisibilidade, do choque. O roteiro te surpreende a cada grande momento apresentado, quando esperamos que tudo corra por um caminho, somente para em seguida o momento ser subvertido. É simplesmente de tirar o fôlego. Muitas vezes, até mesmo em cabines de imprensa (exibições para críticos), as palmas e gritos de animação parecem fora de hora (como nos filmes da Marvel e da DC). Aqui, vibramos junto, porque o filme faz por merecer. E esta cena com Leia é uma delas. Que cena F#da!

Um trecho que deixa a desejar é todo o “treinamento” de Rey ( Daisy Ridley – mais dramática aqui, um pouco menos carismática, mas ainda bem badass ) com Luke. Momento que cria muitas ideias repetitivas, e apresenta o personagem de Mark Hamill de forma ofuscada, sem brilho. Ao contrário, digamos, de Han Solo ( Harrison Ford) no filme anterior, e Leia ( Fisher), neste. Este momento, embora faça muitas referências ao treinamento de Luke com Yoda no segundo filme da trilogia clássica (e esperem uma grande surpresa desta subtrama), serve apenas para revelar o passado de Kylo Ren ( Adam Driver ) e seu relacionamento com Luke. E mais uma vez, guarda certas surpresas, por subverter novamente o que esperávamos.

A verdade é que até mais de sua metade, Os Últimos Jedi estava bambeando, não se segurando como filme próprio e tipicamente soando como um destes episódios de transição, nos quais o mote é a “encheção de linguiça” até nos guiar ao último capítulo. E aí chega o terceiro ato. A partir da cena envolvendo Kylo, Rey e o líder Snoke ( Andy Serkis ), o filme desperta e parece ter tomado a porrada com a injeção de adrenalina no peito, assim como Mia Wallace ( Uma Thurman) em Pulp Fiction . E assim como a desvairada mulher, a reação é a mesma. Acelera, sobe e não para mais. De longe a melhor cena é esta. Um momento perfeitamente trabalho, digno de diversas interpretações e que confecciona uma reviravolta tão inesperada, que consegue remeter e nos fazer lembrar do que um bom roteiro é capaz. É o básico de aulas de roteiro, que a maioria parece esquecer atualmente.

Bem, daí em diante é um abraço. É uma crescente absoluta, e que guarda todos os melhores e mais memoráveis momentos do longa. Para ter uma ideia, imagine a cena final de Rogue One (2016), com Darth Vader. Imagine aquele último momento, esticado para o terceiro ato inteiro. É o que temos em Os Últimos Jedi . Apesar disso, este segundo filme da nova trilogia não é tão divertido ou entretém tanto quanto seu antecessor. E ao contrário do filme de Abramstambém, precisaria aparar mais as arestas. Seja como for, Os Últimos Jedi não é tão sombrio ou desesperançoso quanto O Império Contra-Ataca , mas segue, como não podia deixar de ser, homenageando esta saga tão querida e amada por fãs de cinema do mundo todo. Star Wars segue como o cerne do cinema de entretenimento, e revitaliza suas bases como poucos.

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