Crítica | Vazante – Construção do Brasil no novo trabalho de Daniela Thomas

Crítica | Vazante – Construção do Brasil no novo trabalho de Daniela Thomas

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A evocação de um passado para tentar ilustrar circunstâncias atuais não é um caminho incomum, talvez o passo inicial natural quando se procura – através dos rastros – coletar informações capazes de ao menos esboçar um arco.

Passado em 1821,  Vazante  inicia com um parto que ocasiona a morte da esposa e rebento de Antonio ( Adriano Carvalho ). O protagonista se desespera com a não continuidade imediata de sua linhagem. Em um descontrole Antonio rasga as vestes que com extrema cautela havia trazido para o filho vindouro, esse ato é o único instante no qual o personagem demonstra alguma dor pela morte, muito mais centrada na frustração oriunda da não continuidade de sua estirpe do que na perda da esposa. O personagem não demora para desposar, dessa vez a jovem sobrinha de sua falecida esposa Beatriz ( Luana Nastas ), jovem ao ponto de sequer ter tido seu primeiro sangramento quando ocorre o casamento.

Antonio é um português dono de terras e escravos, um personagem criado para explicitar a grave e violenta relação de Portugal com suas colônias, não à toa o longa se passa um ano antes da independência do Brasil. O longa em muito se dá por meio da perspectiva de Beatriz, porém, ele insinua um movimento descentralizador através do personagem Virgilio ( Vinicius dos Anjos ), um jovem escravo da mesma idade de Beatriz.  Ao ser colocada em uma casa que nada lhe abriga ou conforta, Beatriz, ao lado de Virgilio, passam a encontrar na infância um comum, algo que compartilham dentro das opressões e medos que ambos viviam – em suas doses e formas distintas- mas que de alguma maneira os aproxima.

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Em sua primeira direção solo, Daniela Thomas escolhe falar sobre uma formação nacional caótica, violenta, das diversas formas de submissão e silenciamento. Em sua primeira cena há uma morte durante um parto, a criança morta em seu nascimento é uma imagem contundente sobre os resultados da exploração que se deu naquele período e seguiu se transformando e mutando mazelas. O filme, que foi bastante debatido durante o 50º Festival de Brasília, se debruça em sua personagem em uma espécie de encantamento que a mesma tem pelo bucólico e nessa ingenuidade está o principal problema, de cunho narrativo, pois o que há é um roteiro – realizado em conjunto com Beto Amaral – que perde sua força em um desdobramento pouco inspirado.

Vazante expõe seus personagens sendo devorados, sem exceção, por forças das quais não conseguem se desvencilhar, e a necessidade de uma resignação é mais de uma vez mencionado, seja na cena que os pais de Beatriz – interpretados por Sandra Corveloni   e Roberto Audio – conversam sobre o que lhes caberia por direito após a morte da tia de Beatriz ou quando Feliciana ( Jai Baptista ) aconselha o líder africano ( Toumany Kouyaté) a não continuar se rebelando. Na última cena citada é necessário apontar algo que ocorre durante o filme: a não tradução do dialeto africano falado entre alguns escravos. Essa escolha corrobora com a incomunicabilidade presente, pois explicita que existem abismos, complexidades para além de dicotomias.

Tal como havia em Linha de Passe , está em Vazante a tentativa de uma construção que se costura pelos personagens, aparentando estarem aprisionados pelo seu meio e seu modo, limitações e fronteiras nítidas  e intermináveis em sua densidade. É palpável em sua fotografia, realizada por Inti Briones, essa austeridade fosca e seca. Não é um equivoco construir paralelos entre Vazante e Joaquim (longa de Marcelo Gomes, também desse ano), mas sobretudo no que diz respeito ao tom descrente que os longas entoam.


Crítica Liga da Justiça


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