Crítica | Westworld – 1ª Temporada

Crítica | Westworld – 1ª Temporada

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Rebelião das Máquinas

Imagine um parque temático cuja atração principal seja a volta no tempo para o velho oeste. Não apenas isso, com a passagem adquirida (caríssima, diga-se, e não tinha como ser de outra forma), a interação com figuras quase humanas. E por interação, leia-se relacionamentos afetivos, sexuais e até duelos com direito a assassinatos. Um lugar no qual podemos mostrar sem culpa nosso lado mais sombrio. Parece pervertido, mas é a realidade de Westworld , nova série da HBO que chegou ao fim da primeira temporada no último domingo, dia 4.

A série que ocupou a vaga deixada pela prata da casa, Game of Thrones , se tornou instantaneamente um sucesso. Também pudera, com uma produção apuradíssima, que não fica devendo nada para as mais elaboradas obras cinematográficas – seja nos quesitos técnicos como fotografia, direção de arte, montagem, no roteiro intrincado e inteligente, provido por Jonathan Nolan e Lisa Joy, ou no elenco estelar – Westworld torna-se imediatamente um dos programas mais interessantes de 2016.

Baseado no filme homônimo de 1973, escrito e dirigido por Michael Crichton (autor de Jurassic Park ), a série consegue ir além, acrescentando elementos não explorados no longa, que resumia-se a “criaturas num parque fogem do controle dos responsáveis” – um tema recorrente nas obras do autor. Westworld , a série, é muito mais do que isso, e levanta questões existencialistas, questões sobre o caráter e a condição humana. Tudo isso, é claro, regado a muito mistério que chegam ao cerne da palavra entretenimento.

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Igualmente passado no futuro, onde o parque temático Westworld ganha os holofotes, a série consegue retratar mais situações cabíveis a tal realidade, ao mesmo tempo em que olha por trás das cortinas, e analisa a psique das criaturas artificiais exploradas exaustivamente por puro divertimento. Os androides que interagem com os visitantes no parque servem basicamente para os mesmos propósitos: serem mortos constantemente, ou usados como objetos sexuais.

No local, Robert Ford ( Anthony Hopkins ) é o gênio por trás das criaturas. O inventor deu vida aos seres artificiais, junto com o parceiro Arnold. A dupla foi a espinha dorsal do que vemos hoje, até uma desavença os separar, levando à morte misteriosa de Arnold – uma das maiores incógnitas do programa. A ideia foi comprada e administrada pela grande empresa Delos, que decidiu usar a invenção da dupla para ganhar rios de dinheiro. Esse embate de arte versus empreendedorismo é um dos tópicos levantados e o que move Ford a estar sempre em conflito com a figura de Teresa Cullen ( Sidse Babett Knudsen , de Inferno ), o rosto administrativo da empresa.

A organização precisa se certificar que as criações estejam funcionando da melhor forma possível, já que são a base da empreitada. Imagine como seria se as atrações em um parque se voltassem contra seu público. Ao mesmo tempo, com o passar dos anos, os seres artificiais estão em constante evolução, a cada nova geração se aproximando mais do que é ser humano. O mote assustador, que dá o pontapé na trama, são as lembranças adquiridas pelos robôs.

Na parte científica, ou artística, do parque, Bernard Lowe ( Jeffrey Wright ) é o novo braço direito do Doutor Ford. Bernard é, à primeira vista, o personagem mais isento da trama, e o que se preocupa com o bem estar geral, não negligenciando as necessidades dos seres artificiais, pelos quais possui afetividade. Ele serve como nossos olhos e guia, já que moralmente serve de modelo.

A protagonista da série, se é que podemos dizer isso de uma série que funciona muito como ensemble , é Evan Rachel Wood , interpretando a androide mais antiga do parque – e isso se deve meramente pela ordem dos nomes nos créditos. Dolores, a personagem de Wood, é uma das anfitriãs (como são chamados os robôs “chave”), uma camponesa pura e inocente, cujo arco dramático será um dos mais interessantes ao longo da primeira temporada. Ainda no elenco dos artificiais, Thandie Newton vive a cafetina Maeve, e James Marsden é o heroico Teddy. Ah sim, o nosso Rodrigo Santoro tem um papel de destaque no elenco também, na pele do bandido Hector Escaton.

Um dos elementos mais curiosos, subvertidos do filme para a série, diz respeito ao personagem de Ed Harris , cujas teorias especulativas não pararam de chegar durante toda a exibição até seu desfecho. Creditado apenas como O Homem de Preto , pensava-se que o personagem seria uma versão do Gunslinger do filme original, interpretado por Yul Brynner, o primeiro robô a sair dos eixos e a rebelar-se ferindo e matando os visitantes. Logo de cara uma surpresa: o Homem de Preto da série é humano, um visitante, e não um robô.

Outra dinâmica repetida do filme para a série traz dois visitantes ao parque, narrando o seu ponto de vista. Enquanto no filme, John Blane ( James Brolin) cantava as maravilhas de Westworld para o iniciante Peter Martin ( Richard Benjamin), na série é Logan ( Ben Barnes ) o visitante experiente, levando o cunhado e parceiro nos negócios William ( Jimmi Simpson) a se soltar no local e mostrar seu verdadeiro eu. A dupla tem extrema importância para a trama e suas histórias irão definir o rumo da narrativa.

O que acontece no parque é interessante, mas talvez os bastidores de seu funcionamento sejam ainda mais, por termos uma visão privilegiada das engrenagens que movem esta elaborada farsa.

SPOILERS E SEGUNDA TEMPORADA Só leia este trecho caso tenha assistido toda a primeira temporada

Com dez episódios nesta primeira temporada, sendo o último com mais de 1 hora de exibição, uma série complexa e sigilosa como Westworld não poderia passar sem suas reviravoltas. E elas são inúmeras. A primeira grande revelação veio da verdade sobre Bernard. O personagem mais heroico da série era na verdade um dos anfitriões, um ser artificial que funcionava fora do parque, criado pelo doutor Ford. Essa transgressão foi importante para entendermos que os robôs não funcionam apenas dentro das histórias teatrais, mas sim podem estar em todo canto.

Sim, Bernard era um androide. E o pior, ele não sabia. A revelação vem junto com o cruel assassinato de Teresa, articulado pelo grande antagonista da série, o personagem de Anthony Hopkins . E que atuação o veterano ator, considerado no automático por anos, entrega no programa. De uma vilania sutil e gelada, Hopkinsecoa o calculismo de Hannibal Lecter, desempenhando uma performance inspirada. O mesmo vale para Ed Harris , Evan Rachel Wood , Thandie Newton , Rodrigo Santoro , e em geral todos os atores do programa.

Continuando no terreno das revelações, o nono episódio traz ainda a informação de que não apenas Bernard é um androide, como também ele foi um dia o enigmático Arnold, parceiro do passado de Ford, que ao seu lado patenteou as criaturas na qual se transformou, ou foi transformado. Isso que é Inception! Maeve começa uma rebelião, mas descobre que pode não ter o controle como imaginou. Por fim, algo que vinha sendo muito especulado mostrou-se verdade. William viveu para se tornar o Homem de Preto, mostrando que a narrativa da série funcionava realmente em duas linhas temporais.

Com o final do último episódio muitas perguntas levantadas na primeira temporada foram respondidas, e tantas outras foram feitas. A nova narrativa de Ford funcionou contra ele? Os visitantes estão mesmo em risco? Ford está morto, ou se trata de mais uma de suas artimanhas? O Homem de Preto terá o que sempre desejou, uma nova etapa para seu jogo? O que há além do parque, no mundo real? Bem, todas essas perguntas serão respondidas em 2018, quando a segunda temporada de Westworld irá estrear. Em tempo, a série produzida por J.J. Abrams se tornou o 15º programa de TV mais bem avaliado de todos os tempos, pairando acima de todas as outras séries lançadas nos últimos anos. Este que vos escreve não poderia concordar mais com a voz do povo neste caso, e muito em breve irei revisitar todos os episódios. O gosto será outro, porém, igualmente saboroso.


Crítica Liga da Justiça


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